sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Espelho


Ela é curiosa, arteira, cheia de vida. Não para um segundo, tem as respostas na ponta da língua, é briguenta, bagunceira, gosta de festa, faz a festa acontecer. Tanta graça, tanta manha, um doce. Tanto talento, tanto balanço, um desejo de viver. Ela é só, não tem ninguém ao mesmo tempo que tem. Ela veio de estrela, caiu de um cometa, ninguém sabe, ninguém nunca viu. Dança e encanta, balança o corpo cheiroso na primavera dos dias chuvosos. Ela faz verão, é o calor, tem sabor de felicidade, aquele sabor que quase arde de tão intenso, de tão intenso.
Também sente solidão, sente frio, fica olhando os pingos da chuva caírem e molharem seu rosto bonito. Sente medo, tanto medo, quase um arrepio.
É intensa, linda, leve, misteriosa, beleza de ser. Procura-se a menina, encontra-se a mulher. Acha-se a mulher, e o que se vê é a menina.

sábado, 25 de outubro de 2008

O silêncio dos amantes


Já faz umas semanas que recebi um livro. Uma doce surpresa daquele que sabe das minhas maiores paixões, das minhas estranhas manias e do meu ponto fraco quando quer me fazer um agrado. Ele sabe que tenho delírio por livros e da minha rebeldia quase inocente de lê-los em menos de três dias, talvez cinco. O livro chama-se O Silêncio dos Amantes, de Lya Luft. Uma reunião de contos lindos, interligados, apaixontantes...bem do jeito que eu gosto. Todos com um título inicial convidativo e três ou quatro folhas de pura sabedoria e prazer. Uma delícia, um aconchego, uma fuga e refúgio. Alívio imediato. Realmente, uma surpresa linda, inesquecível. O livro fala sobre as relações interpessoais e de como o silêncio está presente nelas. É uma síntese da vida, reune momentos e as miúdas peças do nosso quebra-cabeça cotidiano.Fala sobre morte, vida, suicídio, pais e filhos; Fala sobre sonhos, romances, desejos de voar, paixões aventureiras e traições cruéis e de como o silêncio, por menos intencional que seja, tem uma força incrível. Eu, intimamente sou amante do silêncio. Gosto de escutar minha respiração, o gemido dos pequenos seres, aqueles sons quase silenciosos que só se permitem escutar através da verdadeira comunhão com o vazio, com o nada. Porém o silêncio que se fala no livro é o que trata da falta de comunicação entre as pessoas, da falta de coragem de pronunciar um salva-me ou um adeus que poderia ter sido evitado. Esse silêncio triste que se trava entre os velhos amantes, entre as mães e os filhos que estão crescendo, entre as pessoas que não se conhecem. Esse silêncio corrosivo, destruidor; o silêncio que por ser tão grande fere, destrói, mata e acaba com esperanças, justamente por não criar nenhuma. Ao acabar minha leitura entendi então, o porque daquele presente, do inesperado sorriso esperando-me com uma sacola da livraria. Eu precisava cuidar do meu silêncio, falar e gritar o que estou sentindo e me incomoda tanto, expor minhas vontades, reagir. Ando tão absorta em pensamentos, cheia de trabalho e preocupação que esqueci dele, logo ele...que entende tão bem o meu ser, que está atento a toda mudança, a todo movimento inesperado e essa constante instabilidade que insisto em manter. Essa foi a forma que ele encontrou de não ficar mudo, de me resgatar para a vida dele, de me fazer abrir os olhos e falar. De acabar com essa mania de escutar e guardar, como se fosse mais uma foto envelhecida que vai para o fundo do baú, sendo depois de muito tempo esquecida em meio as dores.
Entendi. Não silenciarei, meu amor.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Escolho ter tempo.



Tenho pensado muito em escolhas ultimamente. Talvez porque estou em constante contato com elas. Escolher, intimamente, sempre foi muito difícil para mim. Chego a sérias conclusões de que escolhas não são fáceis, não são rápidas e não me agradam, nem um pouco. Entre o emprego e a independência, ou a faculdade e o sonho. O que um me tira, o outro me dá. E com os dois, estou cansada, muito cansada. Pareço arrastar-me todos os dias em direção a ambos. Sempre cansada, sempre cansada. Tão cansada. Sou vinte e vezes o que posso ser. Sou apenas uma, mas ao fim do dia, vou-me juntando, catando meus pedaços pela casa...arrastando meu corpo em direção ao chuveiro, à cama, ao sono. Sempre tive uma vontade maior do que minhas necessidades e, eventualmente, percebi de que as minhas possibilidades também. Meu espírito sempre foi grande, aventureiro. Sempre segui caminhos maiores do que os atalhos que surgem na vida. Eu gosto mesmo de preencher meus espaços vazios, meus longos minutos e eternos movimentos do ponteiro...Porém, de uns tempos para cá, me vejo cansada demais, querendo mais do que 24 horas, ou que tudo dure menos, um pouco menos para que eu também encontre um tempo para mim, para as minhas lágrimas contidas, para meus sonhos esquecidos, para meu sono necessário, para minhas viagens sempre deixadas para o próximo aniversário ou então, para olhar-me no espelho e perceber que já não sou a mesma, o tempo passa rápido e envelheço mais rápido ainda.


"Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito", já dizia a sábia Clarice.

sábado, 4 de outubro de 2008

Eu e minha liberdade.


Todos sentem desejos de voar...Não, não estou brincando e não digo nenhuma mentira. Se eu pudesse, voaria tanto que minhas delicadas asas ficariam cansadas, pesadas...No entanto, repousaria na torre mais alta, bem perto de tocar o céu e voaria novamente sem destino, sem tempo. Coragem é algo realmente raro, porém sobra-me. Sou, inescapavelmente, ousada demais para minha própria vida. Sou uma ameaça a mim mesmo. Falo sem pensar e agir por impulso já virou rotina. Corro riscos, adoro-os. Sinto a liberdade na sua infinita paixão encarnada. Sou um trampolim, um ponto de partida de mim mesma, um pára-quedas que não abre quando se depara com a queda livre. QUEDA LIVRE. LIVRE QUEDA! Doce sensação de sentir-se viva.
E para me sentir viva eu realmente preciso respirar fundo, tocar o céu, sentir o chão, a dor, ouvir uma canção, suspirar, repousar, não pensar, calar, voar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Estranho.



Você já parou para observar quantos rostos diferentes surgem em apenas um dia? Quantos sorrisos diferentes pelas ruas e aquele sabor diferente de gente que não se sabe de onde veio, se saiu do chão, ou se vem do céu. Cruza o sinal, dobra a esquina, passos rápidos, pressa de chegar... Você já olhou para uma foto sua e viu um estranho no fundo? Te fez perguntar, quantos estranhos tem uma foto sua? Quantos momentos da vida dos outros nós fizemos parte? Ou se fomos parte da vida de alguém quando os sonhos dessa pessoa se tornaram realidade? Ou se estivemos lá, quando os sonhos delas morreram? Nós continuamos a tentar nos aproximar? Como se fôssemos destinados a estar lá, ou o tiro nos pegou de surpresa? Pense: podemos ser uma grande parte da vida de alguém... e nem saber. Já olhou no fundo dos olhos dessas pessoas? Experimentou sorrir também, falar algo, puxar assunto, convidar para dançar? Utopicamente, acabo... Apenas acredito na humanização, coração, paixão.

sábado, 30 de agosto de 2008

Volta.


Ouça... está ouvindo, sentindo? Realmente consegue escutar? É o canto, a velha rima das canções coloridas, o bater das asas de uma mariposa serelepe, o som da vida que volta a pulsar.
Dê um pouco de atenção aos sons, aos tons, ao sabor da felicidade. Saborei o doce desconhecido e a amarga dor que acabará sendo lição, aprendizado, renovação, esperança que não deve ser perdida.
Tire a roupa, liberte-se, solte-se. Voe para longe e retorne tão perto, o mais perto que possa chegar. Entre, arrisque passos em direção ao brilho vivo dos sorrisos mais sinceros e limpos, abrace os abraços que estão abertos, beije os rostos mais tristes que possa encontrar. Faça-os mudar, desarme-os, molde-os.
Respire fundo. Aspire todo o ar que você conseguir o máximo de tempo possível. Sinta-o entrando rápido e dilatando seus pulmões, sinta a pureza, a leveza, a pequena alegria de poder respirar, de não ter de parar, de viver.
Por fim, segure novamente minha mão e dessa vez não a solte. Não agora, não nesse tempo, nesse momento, não tão depressa.
Voltei, partida. Trouxe de volta toda a minha bagagem. Ainda bem que você esperou e que os ventos que sopram sempre trazem meu barco para o mesmo lugar.

domingo, 24 de agosto de 2008

Despedida


Deixei o beijo roubado, guardado, lembrado, desconsolado. Larguei aquele aperto de mão grande e firme. Busquei-o novamente, mas era tarde, tarde demais, já tinha ido embora. Para longe, para onde? Por onde... Deixei o sabor misturar-se a dor, a perda infinita de sorrisos raros e a angústias doces, tão sentidas que já nem dói tanto assim, não dói mais. Deixei escapar o medo, aquele desejo ardido, aquele grito inaudível, aquela velha hora do abraço da adiada despedida.
Minhas mãos suadas e trêmulas soltaram-se e eu deixei, larguei, não sei.
Por favor, não espere minha volta, partida.